Depois da conservadora May anunciar uma coligação com o partido minoritário, o partido nega e afirma que ainda existe um grande caminho a pecorrer. Tudo isso complica a permanência da primeira-ministra e põe em risco a saída do país da União européia.
Diferente do Brasil, nem sempre o mais votado é o que ganha. Tudo tem a ver com a margem de vitória. Ninguém, mas ninguém esperava esse resultado quando a primeira-ministra anunciou eleições antecipadas em abril. O consenso total no mundo político britânico, começando pelos deputados do próprio Trabalhista era que os conservadores iam ganhar de goleada. Não só não ganharam de goleada, como  perderam a maioria parlamentar. Foi por isso que, embora os trabalhistas tenham terminado com 57 deputados a menos que os conservadores – em circunstâncias normais, um desastre – o líder trabalhista, Jeremy Corbyn, declarou-se “orgulhoso” e pediu a renúncia de May, que continua como primeira-ministra, apesar do resultado eleitoral ter sido  um fiasco político e uma catástrofe pessoal.
A confusão hoje é total; as possibilidades, muitas. May continuará à frente de um governo de minoria? Corbyn tentará formar um governo de coalizão? E, nesse caso, com quem iria formar? Com o Partido Nacionalista Escocês, que acaba de sofrer um revés eleitoral tão inesperado e tão desastroso quanto o dos conservadores, que por sua vez receberam mais votos do que os previstos na Escócia?
Pela dificuldade que teriam os dois principais partidos em acumular apoio suficiente para conseguir uma maioria parlamentar, serão realizadas outras eleições gerais no outono, e talvez outra , alguns meses mais tarde. May vai renunciar nos próximos dias, ou horas, entregando a liderança de seu partido ao excêntrico, mas erudito Boris Johnson, o “Donald Trump com um dicionário”?
Tudo isso seria de interesse meramente local, e não necessariamente de grande transcendência para os próprios britânicos, se não fosse pelo fato de que em dez dias o Reino Unido inicia negociações formais com Bruxelas sobre os termos de sua saída da União Europeia. A ideia de May quando anunciou as eleições era que o enorme voto de confiança que ela ia conseguir se traduziria em uma posição negociadora mais forte com os europeus para conseguir o que chama de “um bom Brexit”. May afirmou várias vezes durante a campanha (até angustiar os eleitores, pelo visto) que o país precisava, neste momento de tamanha importância para o futuro de todos os britânicos, de uma liderança “strong and stable” – forte e estável –, que só ela era capaz de oferecer. O tiro saiu pela culatra. Hoje não é só May que está em uma posição muito fraca e muito instável. Seu erro colossal ao convocar as eleições da quinta-feira, mais o erro colossal do voto a favor do Brexit no referendo do ano passado, condenou não apenas May, mas o Estado britânico e seus habitantes a um futuro mais que incerto. O que se avizinha é o caos. E talvez, possivelmente, até outro referendo sobre o Brexit.

Por Patricia Cassemiro

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