Num dado capítulo de sua grande obra “O Príncipe”, Maquiavel contempla o mundo político com a seguinte assertiva: “É melhor ser temido do que amado.” Contudo, envolvido na esfera política, o que realmente tememos pelo efeito do que realmente deixamos de amar? São perguntas não tão básicas, mas certamente relevantes até pelo período conflituoso que se vive – ou sobrevive.

Conhecido por revelar a política como realmente ela é, e não como deveria ser, Maquiavel, nascido em Florença, que já fiz questão de mencionar, coloca pontos fundamentais sobre essa ética de jogo de poder. Trazendo para a realidade nossa, tão nefasta, deparamos- nos com dois mundos diferentes. O primeiro mundo, habitado por indivíduos que nem mesmo estão preocupados com a corrupção de um país, apenas salutar com as empatias, simpatias e trocas de favores na racionalidade suja do que se pode chamar como politicagem. O segundo mundo, muito mais complexo, ao meu ver, formula o que já me foi possível trazer de reflexão inicial, “É melhor ser temido do que amado.” Se por um lado, é fogoso e prazeroso o degustar de uma troca de favores, cabe como consequência uma eterna dependência no temor desse assistencialismo. Pega bem dizer que luta contra a corrupção. Ao contrário, se vive, portanto dela, contudo, presa fica ao que não mais consegue se soltar. A razão da política é a ajuda mútua pela bandeira da honestidade, e a razão da politicagem é a cela de mil presos, que juntos pelo mesmo crime, formulando, cada um por si, artifícios que exterminem o outro pela busca constante de ar na transferência de culpa pela alegação final: “Ele mereceu.”

A busca pelo poder não é simplesmente a capacitação da mentira ou na necessidade de artes cênicas, é antes de tudo, estabelecer um amor tão doentio com seus seguidores, que a segunda classe ficará presa no temor de achar que não será mais querido, quando na verdade nunca foi. Maquiavel coloca armas na invasão de outras propriedades. Me cabe alertar a comercialização de falácias para uma guerra civil que cada dia se torna mais presente. Não se prova mais qual o melhor candidato. Tenta, agora, provar entre o mesmo grupo qual amor é mais convicto de confiança e fidelidade. O governante que observa e se utiliza dos termos relativos desta esfera comunicativa, saberá muito bem fazer-se temer pelo simples ato de falsificar este amor que aparentemente recebe por meio da defesa. Antes de qualquer testemunho, seja a favor ou contra, foi necessário cometer um crime. Para esta pessoa que tal infração cometeu, não importa solucionar ele – o crime, mas criar um laço com sua defesa em tal ponto que por outros crimes, novas defesas prescritas, sem qualquer dúvida que um dia exista o silêncio ou o sentimento de erro virão.

Qual jeito melhor um político ou aspirante na profissão cada vez mais decadente tentará colocar em execução para que não somente se mantenha na influência, como na vida de seus seguidores? O fanatismo. Como infectar tal pessoa? Simples, o sentimento de autonomia e oferecer um pouco do que o poder pode ofertar. Seria então o voto? Não somente ele, mas também o círculo vicioso das preferências, que círculos seriam esses? Deixarei para minha próxima coluna – aguardem.

O fanático é parte da relação entre cidadão comum e o ser ativamente político, pois o fanático, ao contrário de São João Batista, dará sua cabeça sorrindo, por considerar que o que defende ou o que faz está certo e urgente para se atingir o ápice da perfeição de uma problematização que só ele problematizou. Como disse o filósofo Voltaire, “Quando o fanatismo gangrena o cérebro, a enfermidade é incurável.” Contagioso não será a opinião de um fanático, pois ele está doente e isto é perceptível. Contagioso será as diferentes formulações que cada indivíduo cria com base na informação de um péssimo governante que lhe entregou de mãos beijadas, mas carregadas de bactérias de sua ética medíocre.

Excluir estes mundos não estará nas taxações de algo fácil. Não é questão de simplesmente trocar políticos ou conscientizar cidadãos, mas proteger de qualquer outra doença uma nova geração que aparece. A velha, infelizmente, infectada está. A segunda, pelos créditos da esperança, poderá salvar o que de resto estava fadado à destruição.

Até mais!

Lucas Nelson

 

                                                  

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