UM SIMPLES CORAÇÃO

Não minto que momentos doem e sufocam-me

Na medida que meus extremos são limitados por ilusões aparentes

Nem sequer,

Repito uma dose de sonhos tintos postos a mesa de meu julgamento

Não minto que mentir seja a fuga mais simples de verdades gritantes

Que ecoam desde o princípio de minha mente até a essência de minha alma

Não escondo meus medos, angústias, falsos sentidos

Meus medos que acumulam-se no íntimo mais improvável

E dilaceram meus nervos, apodrecem minha carne das tomadas

Eletrizantes de meu inconsciente louco e insano

Carregando um lustre em minhas costas amargamente feias pelo tempo

Um lustre de facas apontadas pra meus olhos já cegos

Cegos de uma visão misteriosa sobre o que realmente sou ou

Onde eu realmente vivo

Não me cabe cair e levantar

Não me cabe levantar e continuar andando

Não me cabe andar por andar

Não me cabe dizer e repetir

Não me cabe gritar sem qualquer intenção que realmente vala a pena

Minhas palavras são complexas demais até para mim mesmo

Existo e engulo sapos que eu mesmo crio no meu pântano

Meu pântano cheio de sujeira

Meu pântano cheio de várias outras coisas das primeiras que cultivei

Meu pântano imenso e submerso ao próprio poço de odor mortífero

O meu pântano mais conhecido como coração

Um coração… Um simples coração…

MUDANDO O DESTINO

E se o passado retornasse ao presente como numa sede de instantes,

E pairasse sobre meus temores mais peculiares?

Como se

O tempo

Colocasse em mim provações repetidas num corpo tão novo

Quanto minha própria vontade e desejo de mutilar-me

Suave e puramente ímpar

E se meu futuro não tivesse perspectiva e preso ficasse ao destino mais cruel?

Ao imóvel

Ao intocável

Ao que passou e não mais parece removível

Pois no fundo de minha alma, não quero que seja mutável

Que viveriam as criaturas mais esnobes sem um pouco de suas célebres provações?

Que seria de mim sem as doses intensas do repetido

Do curioso,

Do vivido?

E se o passado aqui resolvesse ficar e daqui amordaçar o futuro?

E se o meu presente indeciso não soubesse mais à quem recorrer?

Ao tempo? Ao destino? Ao incerto?

Quem sou eu agora?

De que vivo neste passado mais atual?

E por onde anda os atalhos nas viradas da sorte?

Vagando no caos

Nos navios pecaminosos de minhas lembranças

E ocultando de si o ilusório mais profundo de cada célula que compõe meu miserável templo

E se apenas o passado não voltasse

Minha existência seria mais convincente das etapas ou relutava em dizer: “quero provar das mesmas angústias”

Avisando sem demora

Sem uma única proclamação

Apenas orientando suas rotas

Nas mudanças de meu destino

POR DENTRO DE MIM

Eu compreendi,

Compreendi que nada existe;

Tudo é apenas uma ilusão ambulante que;

Personificada;

Vaga por dentro de mim esperanças de um mundo inteiro;

Entra pelos poros de minha pele;

E dança com meus sentidos;

Apura-me na audição recebida;

E mutua-se uma vez mais por esferas de minhas células;

A minha existência;

Minha efêmera e complicada dose de questões;

E de repente tudo foi criado e nada existe;

E se nego que nada existe;

Acredito que em mim persista convicções eloquentes;

– E eis que a verdade foi sufocada;

E rasgou-se o véu criativo das cousas primeiras;

Traduziu-se para as línguas desconhecidas o código da moral;

Existência;

Liberdade;

O amor pelos vícios transcendentais;

E morte pelo concreto que tirou de si;

A mais perfeita arma que assassinou o abstrato;

E dentro de mim pousa pássaros vindos do além;

Por mim amputam-me sonhos de algo maior;

Apenas sigo penetrando pelas veredas do meu caos;

Em que não abandono minha filosofia;

Reencarnada;

Proclamando a esfera de uma nova cumplicidade;

Pela síntese do meu talvez;

Superada;

Eu sou o improvável mais provocador de uma nova filosofia.

MEU PRÓPRIO LIVRE ARBÍTRIO

Muito embora eu deseje alguma liberdade;

Sinto que algo me foi dado por esmolas à parte;

E que devo devolver sem qualquer tipo de cerimônia;

Que por efeito de particularidades;

O meu passado clareou tudo o que provisoriamente eu procuro experimentar;

Nada duradouro e muito menos eterno;

Apenas célebres relances de algo que me sirva de uma frustração disfarçada;

Ainda vivo;

Existo pela vontade de não querer continuar ao nada que encontrei-me na mesmice;

Consigo apenas reinventar-me em cada ponto do dia;

E traduzir numa nova língua as minhas relações;

Minhas futuras e breves aventuras;

O meu prazer, ainda que incógnito;

O que quero, de verdade?

Pretendo, como numa única ambição que me foi destinado;

Ocupar-me de uma revolução que criei dentro de mim mesmo;

Vulgarizando todos os antigos preceitos que percorri em defesa;

Acho que estou conseguindo;

Conseguindo, pois, dei o primeiro passo;

Vivendo num mundo que eu próprio criei;

Para um além de tempos incertos…

LEIS DE CÃO

Ao quente que avança sob olhar cangaceiro,

Na caça da igreja por fieis da baixada,

Não pela fome,

Não pela água,

Pela roça queimada e de minha pele surrada;

Por meu sertão ao léu sem fim,

Mais coragem que toda a trupe dos jagunços açoitados,

Do cacto ao som do bang- bang de um chapéu encouraçado,

Os casebres do além da mata de cobras matutas,

A lei dos ventos que cruzam as estrelas pudor clandestino,

Aos bois que correm para um único pedido de donzelas serenas;

A minha caatinga corajosa que come todo o triunfo de pobres analfabetos,

O tempo que me coube nas profundezas do torrão natal,

Não pela poeira,

Não pelas guerras de ambição da cidade grande,

Alma original das meias noites,

Num som único dos destinos marcados e cerrados dos pactos de fogueira,

E aqui vou ficar,

Aqui é meu lugar,

As minhas leis nada adestradas,

Para meu desejo em caboclas,

Para meu mercado de couro majestoso,

A minha terra que corre pelas provações,

Para meu único lugar que avoa como um avião apressado,

E é aqui que morrerei,

E é aqui que serei imortal.

POR LUCAS NELSON

 

 

 

 

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