Por Lucas Nelson

O que representa a história, agora, com seu devido tesouro entregue a destruição? Num certo ponto da análise de toda a problemática do Brasil, seu povo e sua cultura, cabe-se dizer não somente seu desinteresse, mas sua falta de engajamento para obter um interesse. “Não visitei o Museu Nacional”, pode colocar em questão algumas pessoas. Também não tive o prazer de andar por aquele chão e sentir sua intensa obra do passado, mas do que adiantaria ainda continuar aquele monumento? Ela estava abandonada não somente por governantes ignorantes, mas por toda a massa que, ainda não entendeu o poder real do passado na busca de entendimento do presente e formulação do futuro. Encontramos o abalo também nacional de uma perda inquestionável. Todavia, este abalo se dá pela perda de um criterioso estudo do passado, ou da consciência pesada de que o futuro também, pela qual iremos passar, também será só mais algo num completo vazio? Se a cultura nada é relevante, por qual motivo continuamos a projetar nossa pequena participação neste pequeno pálido ponto azul? Que morramos também.

Analisemos um homem do qual tem sua natureza vinda de um local sem bibliotecas, sem museu, sem qualquer tipo de arte, o quão deve ser impossível sonhar com algo grande como o “Museu Nacional”. Este museu representa a última fase de um jogo enigmático de procuras por nossa identidade. Por esta angústia de procurar nossa cidadania, nos vemos na mais perfeita imoralidade de, caso não encontrarmos meios para isso, edificamos nosso papel em meio ao nada da arte, ao nada da intelectualidade, ao nada de todos os registros históricos. Seria então, a oralidade, única forma de preservação de nossa marca. Compactuo com este ideal itinerante de valorização de nossa história. Entretanto, imagine um filho que, ao sair da casa de seus pais, compra sua residência própria. É estupendo saber que ele passou de fase, afinal, comprou sua casa. Porém, sempre será lembrado por sua casa inicial, será puxado para o seu passado, pois ali ele se fez. Sem esta casa inicial, toda a outras do mundo não passam de locais estranhos e insanos, pois ele não sentiu ainda o poder da comodidade.

Aquele fogo representa nossa lama que suja, pelo fogo, não somente o passado, mas a nossa vontade de conhecer a nós mesmos. A valorização de uma terra não se dá pelo seu líder, mas por toda a massa que prevalece sobre todos os demais causos. Nós não ateamos fogo naquele espaço quase que divino, mas nos sentimos culpados por nossa brasilidade fraca, por nossa cultura sem valor, nos culpamos sem culpa, choramos na frustração e indecisão de não sabermos qual lágrima no seu objetivo prevalece mais, o da revolta ou da tristeza pela perda. Mas qual perda ela significa? Deixo para sua reflexão.

Restará alguns poucos utensílios, valorosos. Mas dentre este pessimismo que minhas palavras carregam, não deixo o otimismo fugir de meu ser e entendimento. A destruição virará um marco de importância. No fim das contas, o que se foi ao fim não é exclusivamente todo o Museu, fruto de um descaso governamental absurdo, mas chega o fim de qualquer idealização de um futuro feliz. O que restará agora, para o futuro que esperamos de 100 anos, não é mais o crânio de antigas populações, mas o crânio de pobres indigentes que viram na cultura a mesmice, que zombaram das obras clássicas. Isto que restará. O Museu agora vive não como obra física e restauradora do passado, mas uma sentença que paira no ar, que nos mostra sobre o quão pesado é nosso gostar pelo sofrimento.

O Museu vive como um zumbi, mesmo lento e sem mais seu glamour estético, que também precisava de reparos, ele como um zumbi, volto a dizer, caminha atrás destes pobres humanos que não pensaram um pouco sobre a principal forma de os livrar da indigência. A vergonha se alastrou para aqueles que não escutaram o apelo da restauração. O Museu continua vivendo, porém, traz consigo o juízo da incerteza, não do que faremos a partir de agora, mas do que deixamos de fazer.

 

 

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