Crônicas, o que seria de minha pobre mente criativa, caso não me fosse possível despertar a manifestação das palavras? O cotidiano, as cores que brotam em meu imaginário… Tudo me consome e dilacera meu tédio como numa combinação de um diamante no brilho estralado no dedo de uma donzela. Ainda assim, minha essência fica impregnada nas letras e o cotidiano de meus pensamentos. Degustem de mim. Ou melhor, degustem comigo:

Íntimo, traga-me uma dose de pessimismo

                Fui aprendendo desde cedo que, tudo é questão de um simples sim para a vida. Vez por outra abrigo-me nas reflexões que desenho no meu íntimo no avançar dos dias procurando a veracidade real e concreta de meu destino, meus sonhos, meu “eu” … Simplesmente… É, somente meu “eu.”

Otimismo é aquela dose que, mesmo cara, você se entrega totalmente no degustar buscando por um novo vício. É como se na sua avaliação de freguês, tudo que é caro é sinônimo de qualidade; não importa os sacrifícios que até mesmo criamos, simplesmente queremos degustar esse novo sabor.

Na realidade, a vida nos prega cada peripécia danada que, por um instante, palavras são escritas à sangue sob a vontade pontiaguda de uma pena. Aquele jornal, pelo tempo e amassado pelo pegar das mãos, noticia informações repetidas, cansado, fico à procurar, então, o horóscopo produzindo aquele interesse de saber como devo me portar. Visto-me de branco como uma oferenda aos orixás pedindo paz num amarelo saciando meu bolso. Eu simplesmente espero da vida o bom, o perfeito, o carismático… É por esperar algo bom que, num banco de praça, vejo fatos passarem pela vontade do vento deixando minha alegria para escanteio.

Conversar com o íntimo nunca foi tarefa fácil, afinal, o íntimo é a última instância que você tem consigo mesmo na busca de algo que recupere sua autoestima e faça valer algo ao menos uma vez nessa fugaz vida. É engraçado como somos ensinados a esperar sempre o lado bom das coisas, mesmo sabendo que nossas mãos não tocarão nada. Aliás, o que para mim é nada? O que para mim é tudo? Fico as vezes confuso com tantas perguntas. Pior. Fico revoltado com as respostas.

Ah, adoro uma boa caminhada pelos bosques- sinto que meu íntimo adora também. – E nos poucos momentos que converso com ele, sinto que um pouco de pessimismo não me faz mal, sinto-me seguro em prever incertezas abstratas à tudo que planejei, mas reais como forma de consequência para o que busco. Caminho numa ponte extensa, larga, sozinho em meio a névoa. Vejo-me em dois, uma parte de mim prefere depositar totais esperanças, totais alegrias ao fim de minha passagem nesta ponte, a outra parte prefere acreditar que a ponte sucumbirá, mas que vivi o bastante para ter uma morte em tanto.

Não sei o que a vida reserva à mim e ao meu íntimo, mas seja o que for, já estamos preparados para tudo o que não planejamos. É algo melancólico o que digo? Talvez… Aliás, é por aceitar o talvez que vindo o sim ou não, eu estarei feliz do mesmo jeito. Dane-se as certezas, gosto do agravante meio termo!

A ÚLTIMA PÁGINA

 “Vamos lá. Você precisa ser forte.”

Era incrível como em certas ocasiões nosso pensamento adquiri capacidades de ofertar-nos bons conselhos, principalmente naquela hora. Aquela bendita hora em que nosso maior amigo vai nos deixar. O livro, aquele velho livro que estava comigo todas as noites antes do sono bater à minha porta e que, abrigava-me sempre de meus próprios problemas internos. Não… Realmente ele iria me deixar.

Pode parecer que estou sendo um tanto causador de uma tempestade sem precisão, mas sinto a necessidade de contemplar aquelas velhas e boas páginas do livro que largado encontrei num busão voltando para casa. “Me conte como vai você”, era este o título do livro e até que eu poderia responder. Péssimo. Muito péssimo.

Cheguei na última página, depois de longos capítulos em que revelara as desventuras peculiares de um casal de amigos que, juntos, ajudam um ao outro. Que intenso e totalmente fora da realidade. É como se eu realmente estivesse naquelas letras e projetasse em mim todas as ambições de suas pontuações no calor dos altos e baixos, que aqueles personagens propuseram-me. É como se todos os problemas da minha vida não tivessem importância. Pois eu tinha que ajudar Roberto na conquista de seu amor.

Sabe quando um livro muda totalmente nossa capacidade de pensar? Ou que compramos uma passagem para uma viagem sem qualquer despesas extras, além de nosso tempo e olhos vidrados nas falas? É como se aquele livro que eu agora estou prestes a parar de ler fosse capaz de me tirar deste mundo, de minhas obrigações mais reais possíveis. Tenho em mim todos os capítulos que escrevi sob o já escrito.

A última página causava-me alegria por aquele final- um beijo obviamente de seus protagonistas. – E angústia por formular na minha confusa mente o que iria acontecer daqui pra frente. Teria um “daqui pra frente”? Aquilo tudo não iria ter mais continuação?

Ei, você… Você mesmo. Já leu algum livro que manifestasse dentro de si algo, um prazer incontrolável? É como se todo o alimento do planeta não fosse capaz de abastecer tua fome de curiosidade, de centralidade… De intensidade pelo que lê. É… Livros não só movem o mundo, eles reinventam minha civilização ainda selvagem.

Cada linha proclamava o final de uma história que congratulei-me em ler, cada segundo mostrava-me uma série de finais que a mim, comecei a criar. Um livro que foi capaz de deixar-me ciente do poder de minha voz no anúncio de seu contexto. Uma verdade. Um fato isolado. Um amor não somente por uma obra, mas por algo que me fez humano.

A última página daquele livro com certeza trouxe-me a vontade de fazer uma retrospectiva de tudo o que já li e passei. A primeira parte quando no recreio eu estava distante de amigos, o segundo capítulo que me serviu de refúgio, após uma briguinha besta que tive com meus pais, aquela parte favorita que tive quando li olhando ao espelho e repetindo suas motivações. Tudo aquilo. Aquilo tudo tornara-me um ser sonhador num mundo de pesadelos.

Tudo iria realmente acabar? E o que aconteceria depois? Não, não podia deixar que aquela sede pudesse encontrar uma fonte que me saciasse. Eu queria mais… Eu queria ter a certeza que iriam ter filhos, que novos problemas aconteceriam e que iriam resolver. Pois somente pela certeza das reticências se pode passar por cima dos pontos finais.

Mas li… Aquela última página que foi capaz de lágrimas cantarem em coro, na minha face, o frescor da satisfação. Eu não sabia o que depois iria acontecer, mas tinha certeza de que o que aconteceu foi o suficiente para ler outra obra e ter a certeza de que na vida, não existem pontos finais, mas apenas pausadas vírgulas.

Por hora, o beijo selou a história do livro e o abracei como uma criança que agarra um urso de pelúcia. Por hora os dizeres indicavam-me seu término. Por hora… Aqui eu ficaria conspirando, mesmo sabendo que talvez não daria em nada.

Por hora… Apenas um FIM!

O BREVE E SINCERO

– Diga-me apenas uma coisa – Sua voz já estava fraca num resquício último de fôlego que a vida lhe dera como alegação final. – Todos estes anos… Sentiu-se feliz por tudo?

– Eu viveria cada momento de novo. – Apenas respondi lentamente suavizando seus cabelos que cobriam sua testa marcada pelo tempo.

– Eu acho que poderia lhe dar mais…

– Você me deu o necessário- Retruquei sem mais delongas. – Você me deu o que pode dar sem mesmo eu pedir ou achar que merecia.

– Isadora, cada segundo foi fruto de uma existência que construí ao meu nada mais íntimo e você ousou fortificar com ares de maturidade nos olhos tão esperançosos.

– Sabe, Marcelo, eu poderia ter todos os motivos para suscitar em mim, outros planos de vida que eu quisesse. Não fui obrigada a lhe seguir, muitos menos compartilhar de peculiares e únicas experiências.

Um instante de silêncio foi posto naquele quarto que anunciava o mais temível dos temores. O fim. O fim de uma história tão marcante quanto inquestionável. Minha história degustada em altos detalhes com o companheiro que escolhi para o meu íntimo. A janela que cruzava-se com pequenas rajadas de vento colocaria um término naquele gritante silêncio que, confesso, perturbava-me.

– Tivemos muitos problemas.

– Assim como muitos prazeres. – Fui otimista.

– Lembra-se de nossas viagens?

– Como lembro, Marcelo. Desde nossas passagens aos principais cartões postais do mundo até o ápice de nossa chegada em gozos neste quarto.

– Lhe machuquei alguma vez?

– Agora… Agora você está me machucando.

– Minha última dor de cabeça que lhe darei. – Ele respondeu soluçando no andar dos olhos atrás de um pouco de água.

– E esta dor não existirá remédio que terá a missão de curar. – Dei-lhe sua água vagarosamente. – Pois eu não quero que passe.

Todos os nossos momentos, todas as nossas perspectivas já se tornara apenas lembranças de um passado que, ainda tentado, seria impossível de repetir. Não por nossa velhice, mas por nossas almas já conflituosas com o destino comum aos existenciais particulares, e aos nossos corpos já separados pela ânsia da solidão.

Tudo o que projetos, sim… Nós vivemos intensamente. Nos parecia uma vida eterna enquanto jovens, mas tão curta em nossa vida adulta que não trouxesse à tona seu real poder de reflexão. Tudo estava calmo naquele dia de Domingo. Talvez Deus quisesse aquele momento. Contudo, era ali o ponto final que construíamos para a liberdade que criamos na ambição de nosso ser.

– Estamos só eu e você, aqui? – Perguntou já com o olhar vago e profundo.

– Como sempre. Apenas eu e você.

– Cúmplices?

– Cúmplices!

Sua mão passeava lentamente por meu peito estremecido pela eclosão de meus sentimentos. O último prazer carnal que que nossas forças estavam nos proporcionando.

– Encostai um pouco mais.

Assim obedeci, como uma vontade absoluta de Marcelo.

– Deixe-me ser carinhoso pela última vez…

Logo ele apenas suspirou e deu-me um beijo carinhoso na testa.

– Nunca se esqueça que meus lábios nos seus, executam apenas a mensagem que foi criada em sua mente. Eu beijei a sua vontade. – Explicou tal ação. Sem palavras fiquei.

Sim, ele olhou mais uma vez para aquele quarto. Sorriu numa forma tímida e segurando minha mão. Suspirou mais uma vez. E partiu… Salvou-se de si mesmo para o eterno que nos separou, mas que minha morte não mais nos juntaria. Fomos felizes…

Por Lucas Nelson

 

 

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