Entre nós, meros mortais, existe um fascínio único pela música. Nada melhor que um degustar apurado de uma melodia, seja arriscando soltar a voz nas conversas com amigos ou sozinho fazendo do sabonete, enquanto toma banho, um microfone cheio de vida. Nossos olhos ficam vidrados com aquela letra magnífica que remete a nossa vida, ao que passamos ou o que iremos passar. Contudo, você deve estar se perguntando o que a filosofia tem de “parceria” com a nossa música. Por isso, vamos lá:

Não é surpresa que em minhas aulas – quando arrisco ser professor – e até mesmo ao longo de minhas outras colunas, muito me causa gosto em citar o filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Para este homem tão antissocial e que só amava seu poodle, mas que quando o mesmo lhe causava raiva o “xingava” de humano, seu único conforto era a música. O nosso querido Schop proclamou, certa vez, que a música ocupa um lugar privilegiado, “porque ela não expressa somente uma ideia, mas a própria vontade.” Nietzsche, outro grande filósofo e na lista de favoritos meus, já descrevia a música numa entonação amorosa profunda, “sem a música, a vida seria um erro”. Com base em Schopenhauer, é satisfatório analisar que todos os nossos sentimentos, nossas virtudes e nossas memórias ficam embasadas naquele ritmo, naquele som. Seja qual gênero ou intérprete for, quem nunca, eis que dou um belíssimo exemplo, lembrou do seu amor ao escutar algo romântico ou encheu-se de alegria ao dançar algo mais frenético? Quem nunca ousou, até mesmo, rascunhar músicas autorais que lhe vieram, aparentemente, sem sentido?

A filosofia, na busca curiosa pela observação das coisas, soube muito bem ter uma certeza absoluta, a música é o que engrandece os seres. Cá fico imaginando o pesar de quem não pode ter pleno gozo auditivo, cada som é uma música, cada música um emblema, cada emblema uma história que marca almas para um eterno céu em coro festivo. É característica minha escrever ao som de uma ótima melodia, causa-me uma forte inspiração sem precedentes e deve lhe causar prazer também, principalmente se você escreve, assim como eu.

Desde o pré‐romantismo alemão, a música mantém relações cada vez mais íntimas com a poesia e a literatura. Trata‐se de uma tradição poderosa que se estende num lugar de destaque entre vários nomes renomados. Quem diria que um louco como Nietzsche, que já o mencionei, escreveria um ensaio chamado “O nascimento da tragédia a partir do espírito da música”. Ouso explicitar a ideia de que a música é a priori de muitas, para não falar todas as coisas belas do mundo. Todo o conceito de arte, toda moda casa-se perfeitamente com a graciosidade do som. Por muitas vezes, terrivelmente interpretados erroneamente, os filósofos comungam de ouvidos bem atenciosos. Sim, a filosofia escuta música todo dia. Pois música e filosofia complementam-se sem sombra de dúvidas. Partindo para nosso cotidiano, quem não adora “filosofar” no assento de um ônibus enquanto escuta algo? Quem nunca procurou saber a trilha sonora daquele filme, série ou novela?

Virgílio, em seu poema “Bucólicas”, nos alertou certa vez: “Cada um é atraído pelo que lhe agrada”, assim, cada indivíduo com seu gosto, com seu ritmo favorito. Pois o que realmente importa é mostrar plena satisfação com o que ouve, nenhuma opinião externa pode prevalecer sobre nossos prazeres, nem mesmo adestrar nossos ouvidos. Nosso querido Platão disse certa vez, “A música tem o poder de formar a personalidade”. Confúcio afirmou: “A música é um meio mais poderoso que qualquer outro, porque o ritmo e a harmonia têm a sua sede na alma”. Reitero, apaixonado sou pela filosofia, não sei viver sem música… Sou completo por saber que os dois vivem em mim e vivo para estes dois.

Como li um dia, “Omnia mea mecum Porto” – “Todos os bens carrego comigo”. – E eu carregarei mesmo. Carregarei comigo a certeza que sou uma música perfeita e que me cabe ouvir para viver.

Até mais!

Lucas Nelson

 

 

 

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