A cinco quilômetros do escritório do prefeito, uma jovem de 18 anos apareceu com as tripas para fora, em um açougue, nesta semana. E, com mais esse feminicídio, o número de mulheres assassinadas vai aumentando. Ecatepec volta a tremer.Na quinta-feira, 27 de julho, Mariana Joselín Baltierra usava uma camisa amarelo florescente, calça legging preta e tênis roxo. Havia saído para fazer compras. Eram 9h da manhã. Em seu caminho passaria pelo açougue do rapaz de olhos puxados e sardas. De um lado, a senhora das tortillas já havia aberto e o estabelecimento seguinte era o seu destino. Um trajeto de 200 metros, a plena luz do dia. Fácil, perto, seguro. Baltierra conhecia um dos mantras repetidos em todo o Estado: “Evite caminhar sozinha em ruas pouco movimentadas”. Essa recomendação, mais própria a um familiar ou um amigo preocupado, é feita pelo Governo em sua página na internet.
Não contava com aquele jovem estranho, de 28 anos, que estava há 15 dias trabalhando e morando no local de venda de carnes, Carnicasa. O dono do estabelecimento havia lhe oferecido um lugar para dormir em um quarto no andar de cima do açougue. Havia chegado há pouco ao bairro porque alguns meses antes havia tentado matar sua mãe, segundo uma denúncia feita por sua irmã à Polícia. Mas disso ninguém sabia  até alguns dias.
Naquela quinta-feira, como em todas as últimas do mês, o local estava fechado, e ele pegava ar na porta do local. Mariana passou em frente. A Polícia responsável pela investigação do caso suspeita que ele a agarrou contra sua vontade e a empurrou para o interior do local. Os alimentos que comprou no mercado ficaram espalhados pelo corredor. Na entrada do açougue foi colado um cartaz com uma foto dele: “Pessoa não localizada, ajude-nos a encontrá-la”.
Atrás daquela cartolina que estavam colocando, do outro lado da parede, estava o cadáver de Mariana. Estendido sobre o chão, como um dos animais do açougue. Seu abdômen fora aberto. Parte de seus intestinos estava para fora do corpo, e as marcas ensanguentadas de suas mãos ficarão para sempre sobre aquele piso acinzentado, frio. O homem que a matou também a estuprou.
Essa imagem despertou a ira em um município resignado a tomar café da manhã com notícias violentas. O caso de Mariana custou pela primeira vez uma humilhação pública ao prefeito por parte de moradores “fartos” de que suas ruas tenham se transformado em uma terra sem lei. “Você não vai ver crianças e jovens. Estamos todos trancados. Não que seja uma novidade, mas foi a gota d’água”, afirma uma moradora do bairro onde Mariana morava. Ela participou de uma reunião organizada pelos moradores para apresentar uma série de reclamações e levá-las às autoridades. Nesse dia entregou ao prefeito Indalecio Ríos. E a reclamação acabou mal: o prefeito e sua equipe acabaram fugindo do evento sob vaias e gritos dos moradores: “Covardes!”.
Até o momento neste ano foram assassinas violentamente 15 mulheres no município de um milhão e meio de habitantes, segundo levantamento da ativista Frida Guerrera, com informações da imprensa local. Um dos policiais que está investigando o caso de Mariana olha para seu companheiro e os dois concordam: “Ultimamente tem sido uma por semana”. Entretanto, o Governo municipal conta apenas dois como feminicídios. O Instituto Nacional de Estatísticas eleva a cifra de assassinadas em 2016 a 59, enquanto os números municipais se mantêm em 37. Os dados não coincidem, entre outras questões sem reposta, porque algumas instâncias registram as fichas de investigação e outras apenas as que se destacam com perspectiva de gênero.
O assassinato de Mariana despertou revolta nos moradores de uma localidade que nos últimos anos têm lembrado a época mais obscura de Ciudad Juárez. A crueldade e a violência com que foi assassinada, o fato de que ocorreu a plena luz do dia, perto de sua casa, por um morador, aumentou a indignação e o medo na região.

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