Pobre Isabele que por intensos minutos rodopiava-se num quintal tão podre quanto suas mãos sujas que percorriam fezes de seu animal de estimação, um gato. Balançava-se freneticamente atenuando a certeza da virilidade jovial. Não sei muito se esta assertiva estava de acordo com todas as outras existências juvenis, mas Isabele mostrava sua credibilidade. Ela, pegara uma bola de cor rosa, maior que seus sonhos e pequena diante de seu medo do escuro- jamais ela se atreveria a passear por sua casa em plena madrugada, nem mesmo para ir ao banheiro. – Triste acontecido foi ousar personificar uma jogadora em seu espírito aventureiro e fatalmente jogar a bola para um cesto de lixo. Trágico. Teria ela agora que, sozinha depois de ter relaxado num banho, enfiar suas delicadas mãos num verdadeiro buraco negro tal qual o cérebro do seu vizinho chato. Antes sujar as mãos com bananas degustadas em restos que deixar sua bendita bola, lá… Totalmente órfã de alguém racional para passar o tempo.

Nossa, já pararam para analisar o quão suntuoso é o formato de uma cesta de lixo, ou o que cabe lá dentro? Isabele parara diante daquela dantesca obra e imaginara o real motivo de todas as porcarias serem destinadas ao mesmo local, seria uma tarefa sobrecarregada para o cesto de lixo, não!? Que inocência cativante e assustadora, cestos de lixo só serão apenas cestas de lixo sem qualquer oportunidade de animação, personificação ou sei lá o quê. Mesmo assim, aquilo tremia no seu íntimo e sussurrava em seu ouvido a seguinte indagação, por qual motivo descartamos o real valor que, anteriormente, nos dava ambição? Se tudo perde seu valor para nós que pensamos, qual seria o valor irracional de uma cesta de lixo que abrigava tantos renegados? Qual o valor para algo que não consideramos como racional? Seria possuidor da razão somente aquilo que consideramos como decente para usufrui-la? Não, não pode ser. Negativo. Pois muito bem, poderia ser também positivo. Mas como seria positivo se algo para todos é negativo e nesta negação não existe espaço para um único momento de otimismo? Eu, Isabele e outros tantos bebês, nós sabíamos que aquela cesta de lixo era mais que uma simples cesta de lixo.

Isabele simplesmente apoiou seu corpo numa cadeira que se encontrara ao lado da cesta de lixo, ascendeu diante de todo aquele entulho e viu sua bola. Pegou-a com a mão direita que carregava entre seus dedos um anel que mexia-se numa valsa de lordes, estava folgada e tão escrava que não via a hora de sua liberdade. Desapegou-se de seu par e foi sugada pelos seres daquela cesta de lixo, daquele imenso buraco negro que, de tão limitada, configurava-se um enorme fluxo de mistérios. De onde aquelas coisas vinham? Para onde todos estes entulhos irão? Não prestam mais pelo simples motivo de acabar? E o que define o fim de algo?

Nada, o mundo é um eterno niilismo que Isabele estava se dando conta agora. Não sei bem o motivo, mas acho que sua visão, interligada aos processos de apuração de imagem e modo de entendimento estavam lhe mandando a dica de abrigar-se naquele local toda vez que seus pais brigassem com ela. Ela, agora, queria um sorvete que alimentou sua fome ao ver um pote do mesmo naquela cesta de lixo. Ela estava careca ao ver vários fios de cabelo gritando entre as pontas de uma escova já acometida por câncer. Ela se viu apreendida por várias fotos de homens que seguravam uma pasta de dente. Higiene pessoal? Por qual motivo estavam ali então? Era chamativo aqueles homens que a chamavam com uma doce voz e escondiam suas patas de lobos ferozes.

Deixa para lá, era preferível deixar a bola e seu anel que enviar-se a este mundo tão obsceno. Meio confuso e estranho, mas aquilo atraía Isabele e não me atraía mais. Perdi minha inocência e Isabele tão ainda jovial, era adornada por seus dentes de leite. Rasgou um pouco de seu vestido que estampava pequenas bonecas sorridentes. Tirou daquele lixo uma importante relevância, era capaz agora de construir seus edifícios e sentar-se na poltrona dos fluxos que ambicionava para novos conceitos de valor, amor e prazer. Por qual motivo suponho isso? Eu sou a consciência dela… Um novo lixo que ela nunca poderá limpar.

Por Lucas Nélson

 

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