RELAÇÕES

    Percebo um erro tão comum quanto o cotidiano das manifestações do sol, a confiança perante quem mais gostamos. Seria proibido gostar e, como resultado, confiar neste mesmo indivíduo? Não me cabe outorgar uma resposta feita e até mesmo concreta. Contudo, é inegável as grandes chances de uma temerosa decepção. Não me é possível vislumbrar uma outra mente, quando por minha escolha racional, torno-me irracional e reduzo-me ao selvagem adestrado. Selvagem, pois, pela cegueira perdi uma razão até então usada, adestrado por esta confiança depositada e cultivada, declaradamente dificultosa de se exterminar. Amar quem mais sentimos apreço, seria, portanto, desfazer de nosso próprio conhecimento para arriscar uma oportunidade de relação eterna com o outro, baseado em virtudes tão somente criadas para si. Ainda que uma relação dure, jamais poderá ela ser eterna. Com efeito, decepcionar-se com alguém seria, junto com a melancolia, uma evolução em seu estado de selvagem adestrado, para um humano cético. Não trago pessimismo nas relações líquidas, até pelo motivo deles sempre evaporarem. Trago um realismo tão óbvio que, é camuflado na ilusão enigmática da consideração por alguém.

A LIBERDADE DAS ALGEMAS

Tenho em mim suposições que provocam efeitos colaterais, tais como raiva e uma dose superficial de satisfação.  Parece estranho olhar para mim mesmo e imaginar um “nós” que saudosamente se diverte entre meus pensamentos. Organização. Era tudo o que eu precisava, mas me falta uma razão que significaria uma prisão conduzida ao desespero. No mais, minha complexidade permite começar a escrever sobre algo e terminar este mesmo texto com outro intuito que difere-se do objetivo inicial. É estarrecedor quando não entendem o que escrevo, contudo, se crio um mundo próprio, não estou usufruindo da ideia de competir com um Deus de todos. Eu sou um Deus sem perspectivas para todos. Sou o que sou para mim e ao mesmo tempo, transformo-me em vários pela magnitude de minha imagem diante das reflexões que prego nesta vida bruta. Acalmar-me seria cair na mesmice que fujo sem qualquer tipo de consideração. Euforia é o sentimento que atua em meu suposto emocional e vai modelando meus prazeres carnais em simples jatos de efemeridades. Não me entender é parte fundamental de construção do meu espaço. Nunca se é tão importante quando até mesmo as letras brigam entre si. Todo o resto é coadjuvante.

ANTES E HOJE

    Julguei, num passado exorcizado por mim, procurar minha liberdade somente em uma única essência. Pela ironia ou não, descobri o pior dos martírios, o árduo trabalho de sísifo que estava, agora, repassando ao critério de minhas responsabilidades. Antes, cobria minha cabeça conforme o adorno da esperança do comprometimento pelo crédito fiel de um enigmático amor que, mesmo sem conhecer seu poder, atrás eu ambicionava. Encontrar-se consigo mesmo reflete em dois caminhos, a fuga ou a certeza que você é um produto de pura reinvenção. Para tanto, não mais me é possível acreditar que a dose de minha liberdade seja o vício grotesco de uma prisão ilusória chamada “amor por somente uma pessoa”. Não mais me cabe cobrir tal corpo com o manto da fidelidade que exala podridão em outros cortes sob medida. Minha liberdade possui a significância da independência, da cumplicidade e do olhar fixo para os amores em seu sentido complexo e ousado, jamais saciado. Talvez eu esteja errando querendo acertar que minha felicidade não é direcionada para um só caminho. Ainda assim, pecar seria arrepender-se dos ditos pecados. Por qual motivo amar uma única pessoa quando ao mundo me é dado para, pela lealdade de meus princípios, degustar dos sabores corpóreos de anônimos e íntimos ao meu convívio? Não me permito ser como antes, nem admitir que até mesmo o hoje seja critério eterno. Faz parte mim saber que pelo limite de meus pensamentos, encontro o mais atraente infinito de minhas complexidades.

Por Lucas Nelson

 

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