Amanhecido

Rasgo meu papel que estrangula meus sentidos provocativos

Refaço o palavreado gostoso que provoca engasgo no subjetivo

Eu amanheço olhando para as entrelinhas perdidas nesta ou naquela posição

E escrevo uma tradução que à minha parte não pertence por não colocar um significado em altura máxima

Corto e concordo

Risco uma pontuação

Sujo minha essência com uma tinta azul para favorecer os desfavorecidos

Eu nasço respirando palavras amanhecidas que pensei estarem inflamadas

Sucumbo num túmulo impotente que coroe todo o meu órgão reprodutivo

E agora arte?

Mato teus podres que devoro com olhos

Ou alimento teus versos num poema rebelde que denuncia meus imorais pensamentos amanhecidos?

Amanheço apenas amanhecido

Abro

Meu marco

Abro

Minha síntese

Abro

Meu mundo

Abro

Tua complexidade….

OS PRÉDIOS

Lá lá lá

Eu vejo um mundo sem fim que não cabe no meu pensamento

Lá e cá pra onde eu quiser

E contemplo do azul ao preto estranho

Os prédios cheios de cactos

Os prédios

Os prédios

Os prédios de grades e cheias de vidro

As crianças correndo pelo mato

Que fujam de suas obrigações e brinquem

Brinquem como se crescimento fosse sinal de doença

E a cura é ainda não saber nem ao menos o seu próprio nome

Os versos

Os versos

Os versos rimados da oração dos fiéis na capela do futuro

O meu passado

O meu presente

O meu futuro que passará pra passar depois e passou

Passou passou passou

O dinheiro no final do mês (acabou)

Meu amor (continua)

Minhas esperanças (alimentadas)

Meu mundo (desmoronando)

Lá se vai meus pais

Lá se vão meus concretos

Ficam-se tijolos pintados de cor neutra

Tijolos simples

Apenas tijolos que comprei com pés descalços

ARTE

 E eu proclamo

Proclamo bem como choro

A arte está morta

Morta, ouviu?

Foi encontrada nas telas manchadas de vergonha

Nas danças…

Ah, as danças cúmplices do nada

Que evoca o imbecil abstrato

Desse modernismo sujo

Sujo tal como dentes podres de animais

Animais… Que animais?

Cadê o espelho, vamos… Onde está?

Quero sacrificar-me em prol de seu falecimento

A arte das cores grotescas

E tu

Artista sem importância

Num nome sem identidade

Que em círculos grita e tira a roupa nas praças de meus olhos já cegos

E por um acaso gritas fazendo marcha para qual adversário?

Tua urina não pinta minha obra por assim acabada

Nem por cores de pele

Nem por sementes dessas flores murchas

Nem por nada

Tu é um nada aos que vivem calados assistindo espetáculos de horrores

A minha arte morreu

Morreu dizendo adeus

E sendo confundido por um “salve ao público”

Público de idiotas

Amantes do odor perdido pelos bueiros desta cidade

Que pichas meu nome?

Que rabisca tua família?

Sobrevives desta falta esperança?

E se eu te disser que nada disso importa

Isso importaria para ti? Qual teu preço neste plágio sem fim

Que encanta e envenena as crianças nas tintas mais inocentes desta coleção?

A arte morreu

E eu morri junto com seu ar leve e claro

Claro mais que claro

Desses modernistas de araques

Pobres animais… Pobres humanos…

Pobres sem qualquer classificação

Pobres ricos de talento egoísta

E lá se vai a procissão de minha morte

A morte do conceito mais puro e imperial

A arte morreu desde o tempo dos deuses que criastes

Morreu

Ouça o silêncio

E o infinito calou-se perante suas tortas linhas

Nas civilizações

Nos prédios acalorados

Na minha ilusão

Na ilusão de minha casa

Ouça

Reles

E pobre servente desta obra falsa

Consegues enxergar teu dedo no cu de outros?

E abriu-se para o nada

Do nada

E pra nada

Que quando escreves teu próximo desastre

Eu proclamo pregando feridas na tua testa

Eu proclamo

Proclamei

Proclamaremos…

A arte morreu para os braços dos sem donos

CORPO NU

 Ah, e seu eu fosse jovem…

Das minhas próprias armadilhas eu sairia,

Sairia de meu amor doentio em conflito com o poético,

Canonizava minha carne frustrada pelas ilusões célebres,

E no gritante silêncio de minha imensidão,

Bate-me no breve desenhar atordoado um ciúme,

Fruto de minhas entranhas incógnitas,

Sólidas,

Que esfreguei ao meu corpo nu dedos de prosa atraente,

Amor, eu amo?

Se amo construo minha síntese,

Se vou ao encontro do quebradiço desconstruo minha ópera,

Que entra pelos poros deste corpo indigno de carinho,

E corrói todos os meus ossos que me servem de fogueira branda,

E eis que o homem criou sua morte,

Vestido de amor e totalmente nu pelos desejos proibidos,

Cruelmente estuprado pelo ciúme em sanguínea luta ao poder e possessão da mente e do coração,

E esfrego meu vício,

Solto meus monstros mais obscuros que alimentam- se dá liberdade dos amantes,

Como,

Cuspo,

Lambuzo-me das lavagens,

E vomito minha própria vontade pela amputação de minha língua,

E queimo,

Flutuo,

Em silêncio fico,

Em teus seios quietos ouso explicitar meus gritos,

Causo,

Escondo-me,

E por um instante de doentia selvageria me torno conformado pelo próprio destino que criei.

Jogo-me na brasa que ardentemente sacrifica meu corpo,

Desfaz meu laço,

Envolve-me nas minhas vergonhas subliminares,

Evoca meu ciúme outra vez no olhar clandestino que envolto fico pela que amo,

Sacrifico um tal sentimento chamado amor,

Corrompo toda a realidade de um sagrado

E sem mais delongas de minha miserável vida (como quem suspira pela última vez na mentira que criou)

Assassino a liberdade em mãos nuas.

OS NORMAIS

 Todos os normais casais,

(Paranormais),

Da pedra pedregulho em ventos de mármore,

(De signo Áries),

Todos os normais são anormais perfeitos,

Sujeitos,

Que visam o horizonte num beijo estralado em tom Bossa Nova,

Assassino a liberdade em mãos nuas.

Os normais todo querem,

Querem o comum de corpos já decifrados,

Todos os normais são molhados num verão safado,

(Acamados),

E outra vez os normais pediram-se em casamento,

Casaram?

– Eu casei!

Você casou?

– Não, estou separado!

E quem casou pobre rapaz?

Casou os cometas, os astros queimados e meu rosto estampado.

Os normais são quebradiços,

E a roupa ficou pequena,

Tua mão numa trilha de cena,

E se foi minha loucura,

Dormi e acordei sem saber nem o que fazer,

E agora comuns?

E meu caos pairou onde?

E meu cabelo picado,

Rosado,

Manchado,

Sensato,

E quem me quer, agora?

Normais, todos somos normais,

Pobres dos normais serem normais.

Por Lucas Nelson

 

 

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