MINHA HISTÓRIA E MEMÓRIA NA RADIO DIFUSORA DE PICOS

A Rádio Difusora de Picos completou neste domingo, dia 29 de Julho, o seu 39° ano de criação. Quero prestar minha homenagem lembrando o tempo que lá estive contribuindo, de certa forma, nos seus primeiros quatro anos de fundação.

Foi às 08h43min da manhã do dia 29 de julho de 1979, que entrava oficialmente no ar a Rádio Difusora de Picos. A partir daquele dia e nos dias seguintes o povo se aglomerava à porta da emissora, na esquina das Ruas Santo Inácio com Joaquim Baldoino. Uma emissora de rádio era sem dúvida alguma uma novidade, pois era ao vivo, podia-se ouvir e ver o locutor. Na verdade, o povo era o verdadeiro protagonista… Faziam festas e mimavam os locutores, convidando-os para os festejos no interior. As cartas vindas dos cantos mais distantes e remotos comprovavam o carinho do povo para com os comunicadores.

Mas àquela hora e aquele dia não marcou apenas o aglomerado de pessoas. A fundação da emissora em Picos foi um marco inicial de uma nova era onde se criou formatos que passariam a se estabelecer como padrão para a comunicação de massa na cidade de Picos e toda a região.

A Rádio Difusora estava formando profissionais da Comunicação, capaz de entender as mudanças e fazer parte delas com disciplina. O locutor tinha uma experiência a adquirir através da interação social e assim ficaria motivado para fazer o melhor, dando tudo de si. Por isso, a Rádio Difusora de Picos foi uma oficina de rádio, uma Escola, melhor dizendo; Pois além da necessidade de se falar bem, ali surgia a oportunidade de aprender a comunicação; Essa era a preocupação daqueles que se candidatavam para a locução.

Os fatos aconteciam nos anos oitenta e as mudanças eram visíveis e o jovem da época estava correspondendo a essas mudanças. Não havia esse conteúdo na Escola de Rádio porque as coisas aconteciam naturalmente…

A minha história na Rádio Difusora teve início a partir de sua fundação quando despertou meu interesse em tomar parte do quadro de locutores. No entanto, avaliava não ter chance alguma… Não tinha conhecimento e nem amizade com nenhum dos comunicadores por isso achava estar distante a realização daquele sonho. Além das minhas possibilidades.

No entanto, foi no mês de Março ou Abril de 1980, que a Rádio Difusora de Picos anunciava através do Programa “Correspondente do Interior”, vagas de empregos e estava fazendo testes para locutores e técnicos. Logo me apresentei.

Na sala da Diretoria estavam Heraldo Santos e Erivan Lima e mais uma pessoa que não me lembro que avaliavam o desempenho de cada um, principalmente na elocução e dicção de voz. Deram-me o texto de uma reportagem qualquer que li sem qualquer problema. Fui reprovado! Não sei o porquê. Parece-me, pela pronunciação e expressão sulista ou pela interpretação rápida, imaginei.

Voltei pra casa triste, mas pensando no que já ouvira: “A melhor maneira de realizar um sonho é nunca desistir dele”. Nunca desisti! Esperei por outra oportunidade. Na verdade, aumentou em mim a vontade, como um fator de motivação a mais.

Novamente ouvi, meses depois, o anúncio de emprego e outra vez fiz o teste; desta vez, procurei minimizar a pronunciação e “puxar” um pouco mais a pronúncia nordestina além de uma leitura pausada. Fui aprovado, mas deveria aguardar até ser chamado e assim passaram-se mais alguns dias até receber a visita de Roberval Leite, no Hotel Santo Antonio onde me hospedara, chamando-me urgente. Lembro-me bem, eram exatamente 13h00min e sob um sol de rachar, dirigi-me até a Rádio Difusora de Picos onde fui recebido pelo Diretor, Sr. Sousa Lélis, senhor magro, alto, bigode por aparar e olhar brusco e severo. Apenas disse-me autoritário:

— Me acompanhe!

Segui-o até o estúdio da emissora descendo uns dois ou três degraus. Mandou que eu me sentasse frente ao microfone enquanto dizia:

— Voce vai apresentar o Programa Tarde Alegre do José Elpídio. Infelizmente o titular do programa sofreu um acidente no Bairro Ipueiras. Quebrou a perna. – Voce está pronto?

Apontou a lâmpada vermelha à minha frente dizendo:

— Está vendo essa lâmpada? Está apagada, sinal que não estamos no ar. Quando acender é sinal que você deve dizer alguma coisa. — Ao acender diga boa tarde, diga a hora exata, diga que programa é esse, leia uma carta e faça a chamada de uma música desta lista, a próxima música é a número dois. Vou estar em casa ouvindo. Boa sorte!

E saiu. Fiquei só no enorme e frio estúdio de longas cortinas olhando a lâmpada à minha frente com os dizeres “NO AR” e também a cara do sorriso maroto do simpático Izaias Neto, do outro lado do vidro que separava o estúdio da “mesa de som”. Izaias era um jovem de uns 23 anos que passei a admirar pelo seu entusiasmo. Gostava das músicas de Roberto Muller, Nelson Gonçalves, Waldick Soriano, Perla, Vicente Celestino e outros cantores da velha guarda.

Sem tirar os olhos da lâmpada, fiquei imaginando: “— E se minha voz não sair… O que farei…”? Quando tentei limpar a garganta, a lâmpada acendeu.

Já pensou meus amigos, o sufoco! Tremi na base. E sem atentar no que o Diretor me falara li a carta, disse a hora certa e anunciei a música. Tão rápido que até o Izaias Neto se atrapalhou para encontrar o disco de vinil e colocar no toca disco. Mesmo assim continuava a sorrir. Um sorriso que se transformou em gargalhada. E eu, compreendendo a minha gafe, também sorri. E a música tocando, lá vem ele falar comigo. Conversamos e ele me passou uma energia forte e pude então dar continuidade mais tranqüilo e assim transcorreu o programa até 16h00min. Depois fui pra casa orgulhoso, tinha cumprido uma missão: Falar à multidão!

Foi assim meus primeiros passos como locutor na Rádio Difusora de Picos que fez de mim, um locutor sem nunca ter estudado comunicação e também de todos os outros comunicadores. É bem verdade que sei hoje, que precisava de muito mais para ser considerado um comunicador de verdade! Mas a Rádio Difusora de Picos, naquela época, já era uma Escola de Rádio e ainda é. Muitos profissionais que entraram no mercado de comunicação, já entraram com essa genética de comunicador. Eu, confesso que aprendi alguma coisa depois disso com os outros comunicadores; A paixão deles pelo rádio e pela comunicação surgiu quando a paixão por esse mundo plural ficou conectado com o público ouvinte rural; Principalmente no programa diário: “Correspondente do Interior” que discorria diretamente com o ouvinte do interior, que ansiosos, esperavam um recado, uma mensagem ou uma música que falasse com eles mesmos espontaneamente!

No final de dois meses, com a volta do apresentador José Elpídio, ganhei um programa aos sábados e domingos às 18h00min., que durou pouco tempo, “Jantar Musical”.

Fiz boas amizades durante o tempo que fiquei na Rádio Difusora de Picos. O Diretor Sousa Lélis que antes parecia ser “fechadão”, impressionando a todos com aquele seu bigode por “fazer”, era na verdade um grande chefe. Compreensivo e acima de tudo, Amigo. Conhecia os problemas de cada um e procurava ajudar como podia.

Eu gostaria de citar alguns deles que infelizmente, não sei por que, não são lembrados nas comemorações de aniversário, data 28 de Julho de cada ano e foram eles os pioneiros da Rádio Difusora. Se só foram colaboradores, foram também construtores e aprendemos muitos com todos eles. Guardo com carinho a lembrança de cada um…

Os Colaboradores e “técnicos de som ou sonoplastas” na época, Inácio Gomes, Roberval Leite, Nonato Santos, José Nilson, Marcos Brito, Vilemar Barros, Santos Neto, Elias Farias, W. Sousa, Maurício Otoni no esporte, Cid Moura e nos transmissores na época: José Bernardes e Walmir Bernardes. E aqueles que já partiram para a grande morada: Paulo Afonso, Marcelino Sousa, Gregório Ramos, Izaias Neto; Este último faleceu num acidente na BR-020. O carro em que vinha chocou-se com outro. Teve morte instantânea. Paulo Afonso faleceu recentemente. Todos esses personagens do passado que podem e devem ser lembrados e respeitados como quem fizeram e contribuíram com a Rádio Difusora de Picos.

Também falecido o violeiro repentista Zé Silva que juntamente com Barrazul, abria à rádio todas as manhãs às 05h00min., com o programa “Violas do Meu Sertão”. Marcos Brito da cidade de Francisco Santos, apresentava aos domingos o programa “Marcos Brito e o Sucesso”, aos domingos das 22h00 às 23h00.

Nonato Santos radialista do Maranhão apresentava alguns programas, no entanto, logo regressou para a sua terra natal. Criou o programa “A Noite é Nossa” que assumi, apresentando todas as noites de segunda a sexta-feira, até março de 1983, cujo fundo musical e de chamada “I Have a Dream” do Grupo ABBA marcou consideravelmente as noites. Ainda aos sábados “O Cantinho do Rei”, especial com Roberto Carlos das 22h00min às 23h00min e aos domingos a partir das 19h00 “Domingo Maior”, musicas selecionadas mais tocadas durante a semana.

Ainda apresentando diariamente às 13h00., no ano de 1983, o programa Espírita de oito minutos, “Momento Espiritual – Uma mensagem de Vida e Luz”. Esse programa teve repetição anos depois, em 1988, por intercessão do pai de Torquato Neto, Dr. Hely da Rocha Nunes, que apresentei, juntamente com ele, com o mesmo título e no mesmo horário, às 13h00.

Até então eu era um “tapa buraco” na Rádio Difusora. Não tive carteira assinada e nem registro algum que me desse confiança no tempo que lá permaneci de Março ou Abril de 1980 a Junho de 1983. Quando saí, saí como entrei, a não ser capacitado, mas sem diploma de locutor. Mas saí satisfeito, tinha cumprido uma missão e aprendi muito com a Escola de rádio da Rádio Difusora de Picos.

Parabéns a Rádio Difusora de Picos pelo 39° aniversário e a todos que contribuíram pelo seu cumprimento.

Por Douglas Nunes

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