Na mitologia grega, Sísifo foi um personagem no mundo da ficção, condenado a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, sendo que, toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido. Assim, mito e visão real, hoje em dia, misturam-se por completo. Ainda que não queiramos, nos vemos presos à mesmice. Seria, portanto, nossa sentença final, viver em prol de algo já programado? Numa reflexão breve, lhe convido a avaliar tudo o que tem feito hoje. Será que todos os dias, com as mesmas situações e desafios, tentamos empurrar nosso fardo para a solução e, absolutamente sem resultado, este fardo volta ao som de trombetas?

Ainda neste mundo, todo homem possui o que muitos chama de “livre arbítrio”, para outros, chama-se a completa liberdade. Ainda que reneguemos, todo ser humano vive totalmente livre para despojar-se do que bem entender, entre suas escolhas e consequências. Porém, nestes tempos modernos, vivemos numa grande turbulência nas jornadas de trabalho, afazeres acadêmicos e um pouco de vida pessoal, tudo deve estar no cotidiano para tão bem virar rotina, tudo deve virar rotina para tão pessimamente nos prender ao já conhecido, o mastigado, a mesmice. Quando falta um toque de prática da liberdade, ou quando não sabemos o caminho ideal para sairmos deste roteiro programado, achamos que a vida não mais tem sentido. Surge então o isolamento de nós mesmos, primeiramente, e do mundo. Logo vem a depressão e fatalmente muitos optam pelo suicídio.

O Filósofo Friedrich Nietzsche, autor da obra “Assim falou Zaratustra”, afirmou: “Torna-te aquilo que tu és.” Mas daí surge o grande problema que levamos em nossa brisa existencial, o que realmente somos? O que nos move? Outra grande filósofa, a Ayn Rand, numa certa entrevista que deu, disse que estamos passando pela “era da inveja”. Muitos torcem e querem o mal não daqueles sem qualquer visão de futuro, mas querem daqueles homens considerados felizes e de bom sucesso até sua total destruição. Não me cabe aqui dizer que estes grandes pensadores estão errados, contudo, gostaria de trazer uma reformulação bem simples acerca destas conclusões.

Albert Camus, um grande romancista e filósofo francês, destacou: “Vou- lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias.” É com base nesta frase que irei reformular um pouquinho o pensamento de Nietzsche e propor outra ideia de “Era” diferente da Ayn Rand.

Somos um verdadeiro nada, com efeito, não podemos nos tornar aquilo que somos, pois, somos no início de nossa etapa, um completo vazio e, só através de nossas observações e experiências, que podemos nos tornar algo. Não temos uma essência formulada que não possa ser mudada na medida que queremos. Nós, para grande resultado de nossa existência, devemos construir o que somos e reinventar o juízo final, ou seja, opiniões alheias sobre nós que não nos cabe. Para reinventar toda a taxação que nos é dada, é preciso dar-nos conta de nossa identidade, realmente construir nossos gostos, vontade, desejos e ambições para sempre estarmos prontos na hora que a mesmice bater à porta. Antes de qualquer inveja que possa servir de armadilha contra nós, perigoso ainda mais é quando não formulados nossa identidade, não nos aceitamos do jeito que somos e não lutamos por algo que queremos. Quando, desistimos das escolhas, acabamos por, sem querer, escolher algo pronto, que já vem nos impondo. Isto para a corrente filosófica existencialista, desenvolvida por Sartre, chama-se de “má- fé”, quando renegamos nossa liberdade em escolher e acabamos por aceitar tudo que nos aparece, ainda que estejamos infelizes com isso.

Para sair da mesmice, safar-se até mesmo da inveja, arejar sua mente e combater problemas e desafios, deveras construir o que somos e não o que queremos ser na visão dos outros e, ter sempre em mente a adequação de nossa identidade. Encontro muitos Sísifos por aí que vivem no programado e nem sequer dão-se ao luxo de sair da rotina, de despertar algo novo e criativo em suas vidas.

Um bom conselho dou: Antes de tornar-se aquilo que você acha que é, tenha plena certeza. Para isso, construa na sua liberdade seus desejos e projetos. Faça nascer sua identidade própria, sua visão de mundo interior e exterior. Saiba que escolher é a mais perfeita atitude que podemos ter e responsabilizar-se, uma obrigação. Com pedra ou sem pedra, faça desta existência algo que nem mesmo o juízo final pode lhe prender. Aproveite cada momento, saia da mesmice, e viva sua liberdade.

Até mais!

Lucas Nelson

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