O Poeta,escritor,cineasta,Douglas Nunes,estreia sua coluna aqui no Piaui Online mostrando seu Talento em mais uma de suas obras , a Crônica Sonhos da Meia Noite.

Esta noite tive um sonho aterrador.  A pluma negra da noite cobria toda a Terra;  Via nas serrarias, campos, rios e lagos  a escuridão se formando e a caligem singrando as estrelas. Cá embaixo, sobre a cidade adormecida, surgiam por entre os telhados das casas, faixas misteriosas e vultos assustadores que se elevavam na atmosfera. No meio à solidão, o brilho áptero dos astros, rutilava, apagando aos poucos na imensidão.

Toda a cidade dormia e a umbrosa turgescente, não assistiu o desenvolver das cenas noturnas. Em hora avançada, uma essência desconhecida por mim, volitava sob a atmosfera cálida, pairando sobre avenidas e as ruas e em toda a paisagem da vila, provocando aos profanos visitadores do silêncio, cenas inesperadas.

Foi quando inesperadamente alcei vôo e o medo apossou-se de mim. Volitei, mesmo sem querer, conjuntamente por entre o casario penetrando o forro adentro e subindo mais e mais, perpassando desequilibrado, sem o apoio para os pés que cresciam lentamente por entre o madeiro da casa imensa. Mas de repente, oh! Surpresa! Atravessara por entre a matéria firme do grande telhado. Seguindo adiante pelas ruas e alamedas, e logo fazia parte daquele tétrico cortejo, contemplando cada movimento, atraído por uma força descomunal.

Percebi aqui e ali a presença arrepiante de entes com olhos e luzes de lampejos sinóticos.

Estaria eu realmente sonhando ou tudo aquilo seria os lampejos da morte? Flutuaria o espírito por entre copas das árvores e moradas da Terra ou estaria entre o bulcão abiótico e mefítico do sepulcro?

Sem respostas, continuei a me arrastar pela força invisível em direção desconhecida. Mesmo contra meus desejos de reter aquela insólita viagem, perseguia-me a força inexpugnável, condicionando-me a seguir em frente, em conjunto com outros seres, que agora, se apresentavam tétricas, entre a bruma e caliginosas.

–Para onde seguia? Que força é essa que me carrega sôfrego?

Aquela região não me era conhecida. Porém, parecia tratar-se de um sítio afastado, entre colinas e rios até um bosque coberto de jardins circulares e estreitos, rodeados de arbúsculos despidas de folhas e flores. O caminho gramado e cuidadosamente aparado, com tredécimos portões dourados, conduzia a outros portões igualmente dourados e cercados de arbustos.

Sentei como que aliviado os pés no lajeado e pude dar alguns passos em direção ao imenso portal e ante a minha surpresa em simplesmente atravessá-lo de encontro a imenso salão. Paro um instante. Coração opresso, recordando aos poucos meus tempos de meninice. Aquela imagem colhia-me na memória. Ali nascera e ali crescera e vivera as traquinagens até os meus nove ou dez anos. Mas também naquele local faleceram meus pais em terrível crime cometido em circunstâncias misteriosas e indecifráveis.

No centro do imenso salão, via-se um esquife em madeira trabalhada e nela estendido hirto, os restos mortais de um homem. A epítese daquele drama mal começara. Percebiam-se bióticos, helmintos e ásperos como o umbroso testamento da morte… As emanações mefíticas do corpo leucêmico em decomposição reclamavam sepultura.

Foi quando dos escombros do corpo tétrico, a fervida emulação dos germens no alimento voraz, transformava em louca fantasia em recomeço de um novo drama. Vi-me obrigado a seguir os vapores quase diabólicos que se elevavam na atmosfera. Seguia-as, mas não por que quisesse, mas porque força estranha e descomunal me seguia como um caminho sem volta. Execrava-me tal situação, mas a esse sortilégio me submetia. Era o domínio do invisível que me influenciava

Logo transpomos os umbrais do casario alcançando a rua deserta onde o contato do frescor da noite ao meu corpo se enrijecera e um frio selara a visão desde então paralisada.

Logo se achegamos ao grande campo santo. Cruzes se enfileiravam disformes, caídas entre os portais e as imagens aladas em sepulturas alheias e tristes. Pequenos grupos  em alvas vestimentas se revezavam em orações mais elevadas e outras menos elevadas de anseio. Ao lado, uma multidão quase infinita se apresentava. Eram milhares em espaço para todos. “Talvez fosse Cérbero que vinha para a guarda dos portais do campo ou do falecido” – pensava eu: – “Mas que milagre da vida se faz tão presente se não há a Vida e a Razão para se crer?”  Era a síntese que se formava no meu cérebro candente.

Quando me aproximei todos se enfileiravam fitando-me os enormes olhos ígneos injetados de ódio, outros na calma prudente sorriam, apontando o esquife baixado à campa. A lápide branca ao lado, já assentada continha um título apenas, com as inscrições em letras pequenas, quase disformes que…  Mas Oh! Que cáustica surpresa se apresenta e me paralisa a alma quando leio a lápide em letras negras, o meu nome nela incrustadas:  – O falecido sou eu!

Por Douglas Nunes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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