Entre meu corpo e minha alma, encontrava-se minhas ambições peculiares, meus sonhos tímidos, porém, ousados numa só perspectiva. Rodeada de amigos, deparei-me com a penumbra de minhas lembranças. Meu olhar que até então estava direcionado para faces tão distintas, já vagava por um instante fogoso que o passado fazia questão de mostrar. O meu passado. A minha história.

Diante de mim era erguido embates com meus temores, confessar em voz trêmula meus desafios, nada foi fácil. Nem nunca será. Minhas mãos conversavam com a mesa que apoiava na sua decoração o meu verbo. Em minha frente, revelara-se um espelho que mostrava o tempo, o meu “eu”. Línguas traduzidas foram indecifráveis aos meus sentidos, ainda que aguçados. O entorno do canto, ao fundo, reduzia-se ao mudo atordoante. Apenas enlaçava- me ainda mais em minhas memórias, explorava o meu íntimo sobre tudo o que passei, tudo o que venci e ousei, mesmo sem acreditar, que nada era em vão. Era como um código parafraseado por mim, interrogado por seus curiosos e, somente solucionado por minha vontade. E a minha vontade era estremecer meus olhos relatando o que, por muito anos, ao nó minha língua ficou. Antes estagnada, agora, em movimento.

Sentada, mas dançando com plenitude a superação que conquistei, percorri sobre meus anos já vividos. O espelho, o meu tempo, entrava em ápice ao reestruturar minhas bases sãs. Tive sorte no amor? Sim, eu amei e ainda amo do que me foi entregue sem pedir com ganância. Ousei amar e o tempo me trouxe um amor maior. Estarei agora imortal na essência de outrem. Filhos? Projetos? E o que me vale a vida? Qual é então o meu céu? Eu posso dizer que vivi, pois vivi sem medo, plena. Lágrimas construíram meu oceano, que por muito achava estar morrendo afogada, mas necessária para que eu soubesse nadar. Nadei, e estava ali, numa mesa diante do mundo, comungando para mim mesma o que tanto batalhei para servir de base em minha morada.

De salto, reinventei- me até conseguir dançar de pés descalços. Eu sabia que poderia dançar sob meus problemas. Viveria uma criatura sem problemas? Apenas relatei minha história, com lágrimas dançantes que corriam por minha face galgando certezas de que não posso me arrepender do que fiz, de que posso levantar minha cabeça para a contemplação dos ancestrais, para o divino de meus conflitos e para o testemunho de minha fé. O meu credo estava encarnado, o meu fruto não era proibido. Mesmo em um leito cercada de dúvidas, hoje, me é possível vestir minha melhor roupa para congregar das vitórias que foram vencidas, das batalhas que me foram entregues pelo acaso… Pelos caracteres que, envolto à mim, configuram-me como serva de Deus.

Foi naquela mesa que mostrei o melhor de mim. Salvei- me de mim mesma. Enfrentei os desafios que me foram postos em provação. Alimentei-me de minhas forças enraizadas pelo acaso da vida. E mesmo, até então, oco, vi meu coração pulsar em saber que dentro de meu ventre outro coração mais vencedor estava prestes a batucar pelo universo. Rodeada de amigos, agora, lá eu estava. Somente minha essência e minha história. Tão complexa de ser contada, mas tão degustadora de ser superada. Lá eu estava, diante de meu espelho, o tempo, que os anos me fizeram bem. Que eu estava firme, forte, bem composta e extremamente plena. Pois assim me refiz.

“Por qual motivo, meu Deus?” Sim, recorria em questão ao divino sublime. Mas entendi que motivos resultam de experiências, e experiências viram aprendizado. Eu estava lá, com minha história ainda para ser construída. Agora, iluminada, mas fiel aos meus preceitos. E sempre, sempre rodeada de amigos…

– Crônica inspirada em bases reais. Aqui despeço-me por uma breve temporada de assuntos essencialmente do cotidiano. Acompanharão- me, agora, pelos percursos e percalços de abordagens políticas. Até mais ver!

Lucas Nelson

 

 

 

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