Veneza, patrimônio mundial da humanidade desde 1987, acolhe 25 milhões de visitantes por ano. A cidade suporta vários problemas como o acostamento dos navios de cruzeiro, as grandes marés que alagam a região todos os invernos e a incivilidade dos turistas. Por exemplo, sentar e comer na Praça San Marco – salão da Europa, como dizia Bonaparte, é proibido. Uma brigada de guardiões gira em torno da praça fazendo em média 800 intervenções por dia afim de que os visitantes respeitem as regras estabelecidas.

Em Veneza, nada é simples. Nos canais, vêem-se embarcações que transportam mercadorias, bombeiros, noivos, viajantes, mortos. A logística de uma cidade submergida é baseada na complementaridade dos transportes, aéreo, rodoviário, ferroviário e marítimo. Desde a época do comércio do sal, das especiarias e temperos até o ouro, os venezianos são comerciantes. Eles sempre aproveitaram o acesso ao mar e  tudo que provém dele. Veneza sempre foi submergida pelas inundações porém, a frequência intensificou-se desde a metade do século XX. Para proteger o patrimônio das enchentes da acqua alta, as autoridades colocaram em ação o controvertido projeto MOSE (Módulo Sperimentale Eletromeccanico) que são placas móveis destinadas a neutralizar a invasão da água do mar na lagoa de Veneza. Por enquanto, esse é o único meio técnico encontrado para proteger os solos e mármores milenares da cidade construída sobre palafitas, que já custou bilhões de euros e deverá ficar pronto no final de 2018.

O encanto de Veneza como a cidade do amor e da beleza é mantido cautelosamente pelos negociantes de cruzeiros como uma destinação propícia aos sonhos sem possibilidade de esquivar. Os hotéis, tanto os 5 estrelas favorecendo a vinda de clientes das classes altas, quanto as habitações com aluguéis de custos menores estão, exceto no auge do inverno, sempre completos. Não é somente nas semanas da Mostra di Venezia e da Biennale que os habitantes disputam de maneira desagradável as passagens pelas ruelas e canais da cidade com os turistas. Toda essa atração torna Veneza vítima do seu próprio sucesso.

No centro histórico encontram-se 55 mil habitantes contra 100 mil há 40 anos. O município, que deve participar com 40% dos gastos para a renovação dos palácios e edifícios, sofre com a perca das receitas fiscais. A cidade perde mil residentes a cada ano. Os habitantes de Veneza tentam alertar as autoridades do êxodo da população fazendo manifestações e pedem que elas ajam para que a cidade não se transforme em um museu a céu aberto. Os venezianos não são contra o turismo. Eles militam para que um equilíbrio possa ser achado entre as duas partes e que um consenso seja encontrado.

A população denuncia que as autoridades abandonaram há muito tempo a ideia de trazer novos habitantes e de criar novos empregos que não sejam na área turística. Que as características sociais da cidade não existem mais. Já as autoridades locais, recusam estes argumentos e dizem que estão conscientes dos problemas fundamentais da população e iniciaram um processo de democracia participativa para examinar as proposições populares afim de que Veneza conserve sua alma e seus residentes. A cidade, vivendo do turismo, deve encontrar um equilíbrio para favorecer a instalação de famílias e criar novos empregos.

Controlar o número de visitantes é uma urgência segundo a UNESCO que ameaçou colocar Veneza na lista dos patrimônios em perigo. Fechar as portas da cidade não será possível segundo as autoridades locais mas, regulamentar as chegadas de maneira a repartir o número de visitantes durante todo o ano estará na pauta das prioridades futuras.

por Jenna Colledan

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